Tocantins é o 2º em casos de hanseníase e vive cenário crítico de doenças negligenciadas
O Dia Mundial de Luta contra as Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs), celebrado nesta quinta-feira, 30 de janeiro, lança luz sobre um cenário alarmante no Tocantins, que figura entre os estados brasileiros com maior incidência dessas enfermidades. O estado ocupa hoje o 2º lugar no ranking nacional de hanseníase, além de registrar índices elevados de leishmaniose visceral, doenças diretamente associadas à pobreza, à falta de saneamento básico e às desigualdades no acesso à saúde.
As DTNs englobam enfermidades como hanseníase, doença de chagas, dengue e outras arboviroses, esquistossomose, parasitoses intestinais, leishmaniose, malária e tuberculose. Apesar do impacto expressivo na saúde pública, essas doenças seguem classificadas como “negligenciadas” devido ao baixo investimento em pesquisa, medicamentos e vigilância epidemiológica.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1,7 bilhão de pessoas no mundo vivem sob risco de contrair uma DTN, com cerca de 200 mil mortes registradas anualmente. No Brasil, o Ministério da Saúde estima que aproximadamente 30 milhões de pessoas estejam expostas a essas enfermidades.
De acordo com o infectologista Tobias Garcez, do Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Norte do Tocantins (HDT-UFNT/Ebserh), o fator determinante para a persistência das DTNs não é apenas o clima tropical, mas principalmente a desigualdade social. “São doenças causadas por bactérias, vírus, fungos, parasitas e toxinas, que se concentram em regiões com infraestrutura sanitária precária. São chamadas de negligenciadas porque prevenção, tratamento e reabilitação não figuram entre as prioridades da agenda global de saúde”, explica.
Tocantins entre os estados com maior incidência
O médico destaca que, no Brasil, as DTNs mais prevalentes são hanseníase, dengue, doença de chagas e leishmaniose visceral. “O Tocantins é o segundo estado com maior incidência de hanseníase no país, atrás apenas do Mato Grosso. Até 2024, a taxa de detecção era de 6.315 casos por 100 mil habitantes. O estado também é endêmico para leishmaniose visceral, com uma taxa de 46,4 casos por 100 mil habitantes, uma doença grave e potencialmente fatal”, alerta.
Entre os principais fatores que favorecem a disseminação dessas enfermidades estão a ausência de saneamento básico, a urbanização desordenada, a proliferação descontrolada de vetores, dificuldades no acesso ao diagnóstico precoce, limitações técnicas dos serviços de saúde, desnutrição e falta de informação da população.
“Mesmo quando o paciente reconhece os sintomas, enfrenta barreiras para obter diagnóstico e tratamento, como dificuldade de agendamento, falta de profissionais especializados e escassez de insumos para exames”, ressalta Garcez.
Apesar do cenário preocupante, o infectologista destaca que todas as DTNs possuem tratamento ofertado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “A dengue, por exemplo, é um evento mais pontual. Já o calazar tem altíssima mortalidade se não tratado, enquanto hanseníase e doença de chagas podem evoluir lentamente, deixando sequelas e invalidez. No HDT, fazemos acompanhamento rigoroso, especialmente de pacientes com leishmaniose visceral coinfectados com HIV”, acrescenta.
Doenças de pele são maioria entre as DTNs
O dermatologista Ebert Aguiar, também do HDT-UFNT/Ebserh, explica que a hanseníase e a leishmaniose tegumentar são as DTNs que mais acometem a pele. “A leishmaniose visceral afeta órgãos internos e apresenta alta mortalidade, principalmente em crianças e idosos. Já a forma tegumentar compromete diretamente a pele. No Tocantins, ainda há registros de malária, embora em menor frequência em Araguaína”, observa.
Ele também chama atenção para surtos esporádicos de doença de chagas, muitas vezes associados à ingestão de alimentos contaminados, como bacaba e açaí. “O barbeiro contaminado pode ser triturado junto com esses alimentos, levando à infecção por via digestiva”, explica.
Sinais de alerta e importância do diagnóstico precoce
Febre prolongada, perda de peso acentuada, lesões na pele e mucosas, falta de ar e aumento do volume abdominal estão entre os principais sinais de alerta. O diagnóstico precoce é essencial para evitar sequelas graves e mortes evitáveis.
Fonte: AF Noticias





