Maranhão registra mais de 10 mil nascimentos de filhos de mães adolescentes em 2025
A adolescência é uma fase marcada por mudanças intensas e pela construção de sonhos e projetos de vida. No entanto, a gravidez não planejada ainda representa um desafio que pode comprometer a trajetória de muitos jovens no Brasil.
Mesmo com campanhas de prevenção e incentivo ao uso de preservativos — fundamentais também para evitar infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) —, os números seguem elevados. Entre janeiro e agosto de 2025, o Brasil registrou 168.713 nascimentos de bebês filhos de mães entre 15 e 19 anos, segundo dados do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, compilados em 27 de janeiro de 2026 pela Organização Nacional de Acreditação (ONA). No mesmo período de 2024, foram 179.428 nascimentos, totalizando 261.206 ao final do ano.
Para ampliar a conscientização e fortalecer ações educativas voltadas a adolescentes e jovens, o governo instituiu a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, realizada anualmente na primeira semana de fevereiro, entre os dias 1º e 8.
No Maranhão, entre janeiro e agosto de 2025, foram registrados 10.023 nascidos vivos de mães na faixa etária de 15 a 19 anos. Em 2024, no mesmo intervalo, o número foi de 11.086.
Desafios da gravidez precoce
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a gestação na adolescência está associada a maior risco de complicações para a mãe, o feto e o recém-nascido, além de agravar vulnerabilidades sociais e econômicas. A pediatra e membro da Organização Nacional de Acreditação (ONA), dra. Mariana Grigoletto, explica que adolescentes apresentam maior risco de mortalidade materna. Para o bebê, aumentam as chances de anomalias congênitas, complicações no parto, asfixia e paralisia cerebral.
Segundo a especialista, a gravidez nessa fase também se relaciona a maior ocorrência de intercorrências clínicas, como aborto, diabetes gestacional, parto prematuro e depressão pós-parto.
“Além dos impactos à saúde, a gravidez na adolescência pode comprometer a trajetória educacional das jovens, favorecendo a interrupção dos estudos e dificultando a inserção no mercado de trabalho, com reflexos diretos nas condições sociais e econômicas dessas famílias”, ressalta a médica.
Outros fatores frequentemente associados à gravidez precoce incluem ausência ou interrupção da amamentação, falta de corresponsabilização do pai biológico ou parceiro, escassez de rede de apoio, uso de álcool e outras drogas, violência intrafamiliar e, em alguns casos, rejeição familiar.
Saúde mental
A maternidade na adolescência pode afetar diretamente a autoestima e o bem-estar emocional das jovens, trazendo desafios também para o desenvolvimento do recém-nascido. Insegurança, medo e ansiedade são sentimentos comuns e reforçam a importância de escuta qualificada, cuidado contínuo e apoio emocional.
A dra. Mariana destaca que o Sistema Único de Saúde (SUS) garante assistência psicológica às mulheres antes, durante e após o parto, conforme legislação vigente.
“Durante a gestação e após o nascimento do bebê, é natural que surjam emoções como ansiedade ou tristeza. Por isso, o cuidado com a saúde mental é fundamental. A legislação garante que gestantes, parturientes e puérperas tenham acesso à assistência psicológica no SUS, sempre mediante avaliação do profissional de saúde, já no pré-natal”, explica.
Direitos do adolescente
O debate sobre saúde sexual na adolescência envolve informação, acolhimento e respeito aos direitos dos jovens. O adolescente possui direitos e deveres em todas as dimensões da vida — inclusive na sexual — e pode esclarecer dúvidas de forma reservada com o médico.
A pediatra ressalta que, embora seja comum que pais desejem acompanhar integralmente as consultas, o atendimento individual ao adolescente é permitido e recomendado, desde que não haja risco à sua vida. “O respeito ao sigilo profissional é fundamental para que o jovem se sinta seguro para falar sobre suas dúvidas, medos e curiosidades”, afirma.
Métodos preventivos
Outro ponto destacado é a necessidade de responsabilidade compartilhada na prevenção da gravidez e das ISTs. Segundo a especialista, o cuidado ainda recai principalmente sobre as meninas, o que precisa mudar.
“A gravidez acontece dentro de uma relação. Embora as adolescentes enfrentem grande parte das consequências, é indispensável envolver também os meninos nessa conversa, discutindo seu papel e responsabilidade”, defende.
A médica também reforça que o uso isolado da pílula anticoncepcional ou do preservativo pode não ser suficiente e recomenda a chamada prevenção dupla: uso simultâneo de preservativo (masculino ou feminino) e um método contraceptivo reversível de longa duração (LARC), como DIU (hormonal ou de cobre) e implantes subdérmicos.
Esses métodos têm alta eficácia e praticidade, por não exigirem uso diário, com duração de três a dez anos e retorno da fertilidade após a remoção. “Toda segurança é importante nessa fase da vida, tanto para evitar uma gravidez não planejada quanto para prevenir infecções sexualmente transmissíveis”, conclui a dra. Mariana.






