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A menina do peixe: da infância no Maranhão ao sonho que viralizou no Brasil

Amanhecia antes do sol, descascando mandioca e procurando coco babaçu. Sabia que a tarde começava quando era tempo de ralar a tapioca. Colocava a goma em garrafas pet vazias, para correr à noite para o centro de Brejo das Flores, interior do Maranhão, onde vendia dois litros por cinco reais. Sábado e domingo eram tempos de trabalhar no restaurante junto ao pai, assando castanha e cortando o lambari, bem fininho. Ela tinha 9 anos, sem medo e nem impeditivo para usar a faca no trato com o pescado. Certamente foi ali que começou a nascer a “Menina do Peixe”.

Bianicy Oliveira completou 24 anos agora, com feitos jamais imaginados enquanto moldava sua vida entre o Maranhão, o Pará e Minas Gerais, os três estados em que morou. Há dois anos, quando ligou a câmera do celular e filmou sua rotina cortando peixes em seu pontinho de venda, manuseando a peixeira com uma habilidade impressionante e conhecendo como ninguém os pescados que ela mesma escolhe de madrugada no mercado Ver-o-peso, não sabia o que era viralizar. Mas logo na primeira postagem chegou à casa das milhares visualizações.

Em pouco tempo, tinha 2 milhões de seguidores no Instagram e no Tiktok – um deles a reportagem de Paladar – contratos de publicidade e, agora, uma chance cada vez mais próxima de ter o seu próprio negócio na área da gastronomia. Não sonhava em ser influencer e o motivo nem era tanto o desconhecimento dessa área de atuação.

Contou ela que é a filha número 4 de seis irmãos, todos em idade escadinha e começou desenhar esse sonho – que nem sabia que tinha – quando aos 11 anos viu o pai Raimundo morrer afogado no rio Remanso, onde ficava o restaurante fluvial em que a família trabalhava, em bicos aos finais de semana.Bianicy - a menina do Peixe Foto: Arquivo Pessoal

Bianicy – a menina do Peixe Foto: Arquivo Pessoal

“Nesse mesmo dia, quando a gente chegou em casa, minha mãe disse: perdemos o nosso pilar. Vamos precisar trabalhar todos juntos, mas vocês nunca, nunca vão parar de estudar, por mais difícil que seja”, lembra Bia, como é chamada.

Logo em seguida fez as malas, para junto com os seus, mudar para Barcarena, cidade a 111 quilômetros de Belém.

Do Maranhão a Belém: os peixes, as receitas e a logística

Na bagagem, levou a experiência de “saber vender” – sim, currículo incompatível para uma criança – e arrumou espaço na rotina infantil para primeiro ajudar a mãe e as irmãs mais velhas e, depois, aos 16, conduzir na linha de frente um ‘açougue de peixe’ que montaram perto de casa.

Foi este açougue que rendeu o sustento da família Oliveira, instalado em uma vendinha no esquema porta na calçada, espaço hoje bem conhecido pelos seguidores da “Menina do Peixe”.

Até o primeiro vídeo ser postado, Bia foi aprendendo de maneira autodidata a trabalhar com os pescados, quais partes explorar na limpeza, os melhores cortes. Foi ideia dela buscar uma vez por semana, às madrugadas, os melhores e mais diferentes tipos de mercadoria no Ver-o-peso, um dos maiores mercados a céu aberto com a síntese do sabor e da cultura de Belém. E lá, com os pescadores, foi aprendendo os cortes, o manuseio, os nomes, os truques, todos reproduzidos na vendinha depois.Barcos Pesca Mercado Ver-o-Peso Foto: Pedro /Adobe Stock

Barcos Pesca Mercado Ver-o-Peso Foto: Pedro /Adobe Stock

Os trajetos de barco entre sua cidade e Belém, cansativos e sonolentos, eram o tempo certo para estudar, ler os livros e permanecer firme na continuidade da escola. E os cálculos necessários para o armazenamento, manutenção da temperatura, o quanto comprar e vender para não ter prejuízo foram semeando em Bianicy a vontade de não só concluir os estudos no Ensino Médio como, talvez, permanecer estudando, quem sabe…

Os peixes e a vendinha formaram a dupla que garantiu o sustento de toda a família, não a ponto de ter alguma fartura, mas – ao menos – de escapar da escassez e da fome. E o repertório gastronômico de Bia aumentava conforme ela ouvia atentamente seus clientes. Se no mercado, ela olhava para aprender a cortar o peixe, com a clientela ela ouvia para saber como transformar o alimento.Bianicy - a menina do Peixe Foto: Divulgação

Bianicy – a menina do Peixe Foto: Divulgação

“Eles me contavam as receitas, suas utilidades. Caldo de piranha para animar o casamento, a carne da dourada para ter saúde dos ossos, partes descartadas que poderiam ser aproveitadas. Eu aprendi tudo, até porque muitos eram bem mais velhos e saudáveis. Tem uma moqueca que quem me ensinou tinha 107 anos”, conta.

“Mas o mais legal foi aprender com eles sobre a grude da pescada amarela, que fica bem escondidinha, e depois aprendi valer uma fortuna”, diz em referência à bexiga natatória deste peixe, usada na culinária oriental e chamada de ouro amarelo pela indústria cosmética, por ser rica em colágeno (inclusive, no alvo do Ministério da pesca e Agricultura que regulamenta a pesca, a extração, o uso e a exportação de grude – que rende bilhões).

De Belém para Minas Gerais, agora com novos sonhos

Bianicy - a menina do Peixe Foto: Divulgação

Bianicy – a menina do Peixe Foto: Divulgação

Foi com essa visão de ponta a ponta de todo o percurso gastronômico dos peixes – desde o produtor, venda, culinária e outras ramificações – que Bianicy foi enganando o cansaço de trabalhar de domingo a domingo, permanecendo nos estudos e com vontade de estudar, encontrou um nome para o que fazia: “Decidi estudar administração e logística”, conta.

Também era assim que ela pisava nas pedras, muitas delas, encontradas e retiradas do caminho. “Era dolorido por todos os lados. No mercado Ver-o-peso, muito assédio e machismo, minha peixeira não intimidava os homens na madrugada”, pontua. “No vilarejo, a marcação do Conselho Tutelar que cobrava da minha mãe o nosso trabalho infantil, mas não tínhamos saída não fosse trabalhar. Na escola, muito preconceito. Ninguém quer se aproximar de quem vende peixe. Falavam do meu cheiro. Eu chorava no banheiro.”

Até que…

No curso técnico de Logística, pediram para a jovem aluna montar um protótipo de um negócio do zero. “Eu via nos livros o que eu fazia na prática. Resolvi registrar e mostrar meu açougue de peixes. Gravei um vídeo para a apresentação.”

A professora gostou tanto que sugeriu que ela postasse em alguma rede social. Há dois anos, ela fez – como sempre – o que precisava ser feito. Escolheu o Tik ToK, depois postou no Instagram. Postou, Viralizou. E, assim, nasceu a menina do peixe para a internet.

“E eu posto nas redes exatamente como é minha vida, meu trabalho na peixaria, as receitas culinárias que faço em casa. Mudou o olhar das pessoas. Mudou minha vida.”

Bia, ano passado, reencontrou um amigo da escola. De namorado, virou marido. A vida de peixeira e produtora de conteúdo permitiu que ela mudasse para Uberlândia. O trabalho com os peixes permanece, nem só por necessidade, mas agora também por muito gosto.

“Há espaço para o sonho, sim. Sonho em ter meu próprio negócio, na área da gastronomia, e isso tá próximo, cada vez mais próximo. Talvez a marca da Menina do Peixe.”

Arimatéia Jr.

Arimatéia Jr.

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