Pastor invade casa de umbanda, ofende fiéis e acaba preso em Lagoa Santa
O pastor Wagner Otoni Carvalho, de 63 anos, foi preso em flagrante depois de interromper um encontro religioso no Templo Umbanda Cabana Pedra Branca, fundado há oito anos em Lagoa Santa, Região Central de Minas.
Segundo Erlon Câmara, dirigente do local, de 49 anos, o suspeito entregou panfletos sobre conversão ao cristianismo, disse que as pessoas estavam com “o demônio no corpo” e iriam para o inferno. Carvalho ainda tentou arrancar a guia – colar que, de acordo com a crença, simboliza proteção – do pescoço de um dos fiéis. O crime aconteceu na noite de 26 de julho deste ano. Desde então, o suspeito está detido, acusado de racismo religioso.
Erlon conta que naquela noite havia cerca de 200 pessoas reunidas para os atendimentos gratuitos realizados toda sexta-feira à noite, quando o pastor entrou na casa “abordando as pessoas com panfletos e dizendo que aquilo não era de Deus”. O pai de santo disse ainda, que no momento, integrantes da casa, inclusive ele, estavam incorporados, o que gerou um grande constrangimento.
Geiza Francielle Rodrigues de Sousa e Ana Luiza Barbosa Rodrigues, participavam da celebração, e alegam ouvir do homem dizer que elas “iriam morrer” e que seus rostos “iriam arder no inferno”. Depois de ser retirado do imóvel pelos frequentadores, ele continuou na calçada, impedindo que pessoas entrassem ou saíssem e adentrou veículos de fiéis.
Wagner Carvalho já havia ido ao terreiro algumas vezes, de acordo com o líder. “Já veio entregar folhetos e ficar do lado de fora, mas nunca tinha sido agressivo”, afirmou.
“Tivemos que convencer a polícia de que se tratava de um crime”, desabafou Erlon. Ele criticou a conduta da Polícia Militar, que foi acionada, e ao chegar no local afirmou não entender qual crime estava sendo cometido. Uma integrante da casa, advogada, precisou ler o artigo 20, da Lei no 7.716/89, que tipifica o crime de praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou nacionalidade, para convencê-los a dar voz de prisão ao invasor.
O líder umbandista relatou ainda que 15 vítimas foram à delegacia, mas tiveram dificuldade para prestar depoimentos e garantir a prisão do infrator. “Três filhos precisaram dormir na porta da delegacia e foram liberados quase 14h do dia seguinte”.
Segundo a Polícia Militar, mesmo na delegacia, o pastor continuou ofendendo a crença dos umbandistas e novamente ameaçou arrancar a guia de Bernardo Victor Rosa Gama, que posteriormente fez um pedido de medida cautelar à Justiça.
Racismo religioso
Enquanto a intolerância religiosa pode ser um conflito de opiniões ou aversão a qualquer crença, o racismo religioso está relacionado ao preconceito herdado da escravidão de pessoas negras. Ele visa desvalorizar e acabar com a cultura e a identidade de matriz africana, tratando os praticantes e seus espaços sagrados como inferiores.
De acordo com uma cartilha divulgada pelo Mistério Público de Minas Gerais, esse crime pode ser cometido através de agressões a praticantes, depredação ou incêndios a terreiros, por exemplo. Também configuram racismo religioso dificultar a emissão de licenças de funcionamento para terreiros, perseguir símbolos e vestimentas religiosas em espaços, associar as práticas e divindades de determinada religião ao “mal”.
A punição para esses atos está assegurada pela Lei de Combate ao Racismo (Lei nº 7.716/1989) e pelo crime de Injúria Racial (Art. 140 do Código Penal), que garante proteção à honra de quem é ofendido por motivo de raça, cor, etnia ou religião. As penas podem podem passar de quatro anos de prisão.
*Estagiária sob supervisão da subeditora Juliana Lima





